sábado, 5 de novembro de 2011

Conto para leitura: 2º e 3º "EE João Lourenço"

Em A terceira margem do rio Guimarães Rosa aborda a loucura e o abandono com a poesia e a linguagem, quais, caracterizam o grande escritor. É a metáfora da origem, do destino e da travessia, a necessidade de viver as águas, ora violentas, ora calmas, do rio com o objetivo de chegar ao lugar almejado. O conto narra a história de um homem que repentinamente manda construir uma canoa, passando a habitar a terceira margem do rio. Mais do que a preocupação em caracterizar o pai, as palavras do narrador denunciam a tentativa de retratá-lo como um homem normal, em nada destoando dos outros pais do lugar. Depois de se isolar na canoa, o pai entra na categoria do diferente, e isso choca o senso comum: Nosso pai não voltou. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. Ao dizer que “aquilo que não havia, acontecia”, o narrador evidencia a atitude vanguardista do pai, que ousou buscar a diferença. Dirigindo-se ao rio, propõe ao pai que troque de lugar com ele, que então assumiria esse papel. As palavras do narrador traduzem o sentido latente da opção feita pelo pai: tem de haver alguém que ouse desafiar as regras estabelecidas, que proponha o novo, o diferente, o inesperado. O pai atende ao apelo, mas o narrador fraqueja. A terceira margem do rio apresenta alguns elementos recorrentes na ficção rosiana. A imagem da travessia como alegoria do viver, tão explorada em Grande sertão: Veredas, já é prenunciada no conto. Uma vez que a travessia traz consigo toda a simbologia da existência humana, a escolha do pai pela terceira margem sugere, simultaneamente, a defesa de um espaço de exceção, expresso pela margem, e a inserção do insólito, na atopia, no entrelugar, no não-lugar indicado pela referência a uma terceira margem. Em termos filosóficos, isso equivale à obtenção da síntese, apogeu do processo dialético, momento de equilíbrio. O fato de o pai, em vez de chegar a algum lugar, preferir continuar na canoa, traduz a sua consciência do aspecto mutável da existência. O contraste entre o modus vivendi do pai e o senso comum é metonimizado pela sua relação com o filho. Aquele que poderia continuar o projeto do pai fracassa por duas vezes em virtude de sua covardia. Na primeira, no momento da partida do pai, quando este faz menção de levá-lo consigo, mas desiste quando percebe o seu medo e, já adulto, quando propõe a substituição, mas foge ao combinado. A coragem aparece como um dos atributos mais valiosos do ser humano, devendo o medo ser superado. O maior contraste entre pai e filho em A terceira margem do rio é justamente a ousadia de um e o medo do outro. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis do meio-do-ano. (...) Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, (...) A vitalidade do pai parece derivar da vida livre que escolheu para si, e torna ainda mais flagrante a mesmice da vida comum, “apenas um demoramento”. Elucidativas são as palavras finais do narrador, que lamenta a própria condição. Primeiras Estórias (1962) - João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 1908/Rio de Janeiro, 1967); Gênero literário: estória (conto breve)

Caetano Veloso - A Terceira Margem do Rio


 Oco de pau que diz:

Eu sou madeira, beira

Boa, dá vau, triztriz

Risca certeira

Meio a meio o rio ri

Silencioso, sério

Nosso pai não diz, diz:

Risca terceira

Água da palavra

Água calada, pura

Água da palavra

Água de rosa dura

Proa da palavra

Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra

Entre as escuras duas

Margens da palavra

Clareira, luz madura

Rosa da palavra

Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri

Por entre as árvores da vida

O rio riu, ri

Por sob a risca da canoa

O rio riu, ri

O que ninguém jamais olvida

Ouvi, ouvi, ouvi

A voz das águas

Asa da palavra

Asa parada agora

Casa da palavra

Onde o silêncio mora

Brasa da palavra

A hora clara, nosso pai

Hora da palavra

Quando não se diz nada

Fora da palavra

Quando mais dentro aflora

Tora da palavra

Rio, pau enorme, nosso pai

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Esta letra foi retirada do site Letras.mus.br <www.letras.mus.br>

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